sábado, 26 de dezembro de 2020

Primer


 Este filme traz teorias da física de forma complexa e desafiadoramente compreensíveis. Este é o aviso de que ele é o filme mais difícil de entender que eu já ouvi falar, assista-o preparado para provavelmente não entender nada.
 Abe e Aaron são dois amigos engenheiros, que na tentativa de criar um dispositivo que diminua a massa aparente de objetos, acabam inventando acidentalmente uma máquina do tempo. Eles planejam meticulosamente tudo o que deve ser feito antes, durante e após as viagens para que não haja uma quebra paradoxal temporal. Ao contrário dos outros filmes de viagem no tempo, Primer não explica nenhum conceito, não tem uma edição que facilite nossa compreensão e provavelmente só foi feito como forma de desafio do diretor/roteirista/produtor/ator Shane Carruth para o resto do mundo.
 Quando eu assisti Primer pela primeira vez eu reiniciei o filme depois de meia hora assistindo-o e fui pegar caneta e papel. Depois de assistir umas 4 vezes consultando e adicionando anotações eu acredito que eu tenha entendido cerca 80% do filme. Primer só valerá a pena se você gostar de ficar se torturando psicologicamente para entender algo. Então se você, assim como eu, não pode ouvir alguém falando que não entendeu nada de algum filme que isso já desperta um interesse em assisti-lo, tenho certeza que Primer será um dos seus maiores desafios cinematográficos.

Destaque:
  • É óbvio que o destaque do filme é o roteiro. Eu fico pensando no grau da genial obsessão desse cara pra conseguir bolar toda essa história.
Diretor: Shane Carruth
Ano: 2004
País: Estados Unidos
Minha nota: 8/10

sábado, 28 de novembro de 2020

Minha irmã - L'enfant d'en Haut



 Atenção: Se você não gosta de filmes parados, não assista a este.
 Simon sobrevive através de furtos realizados em uma luxuosa estação de esqui. Ele mora com a irmã, que vive constantemente pulando de emprego em emprego e atualmente depende financeiramente de Simon, que com apenas 12 anos cumpre a função de mantenedor de sua casa.
 O filme se divide entre os dois grandes dramas da vida de Simon, o drama social, que o leva a praticar os constantes furtos, e o drama familiar, que inicialmente aparenta ser contido e até casual, até nós nos aprofundarmos em sua pequena e disfuncional família e descobrirmos que a vida de Simon é muito mais trágica do que aparenta. 
 As atuações dos ótimos Kacey Mottet Klain e Léa Seydoux são a base de apoio para essa comovente e bem escrita história, que certamente encontrou a direção perfeita nas mãos da Ursula Meier, diretora já acostumada a captar o drama e a melancolia através de silêncios, olhares e expressões de seus atores.

Direção: Ursula Meier
Ano: 2012
País: França
Minha nota: 8,5/10

domingo, 15 de novembro de 2020

As boas maneiras

 

 
Essa é mais uma ótima produção do gênero de horror/terror nacional, gênero esse que felizmente está se expandindo e conquistando aos poucos os ainda incrédulos cinéfilos repetidores da frase: Filme brasileiro não presta!
 Em As boas maneiras acompanhamos Clara (Isabél Zuaa), que começa a trabalhar de babá/enfermeira para a rica caipira Ana (Marjorie Estiano), que a contrata mesmo ainda estando grávida, para auxilia-la com a casa durante esse período de gravidez. Como Clara dorme no serviço ela começa a reparar que Ana tem estranhos hábitos noturnos, que vão se intensificando com o avançar da gestação.
 Esse é um daqueles filmes em que tudo e todos inicialmente parecem triviais, até que sutilmente percebemos que toda a normalidade dos personagens começa a criar um tom diferente, algo mais sinistro e surreal. E é no auge desse surrealismo, exatamente no meio do filme, que ocorre uma brusca passagem de tempo, isso é algo que normalmente me incomoda muito, mas em As boas maneiras isso não quebra o ritmo do filme. Quando começa a segunda parte do longa nós já sabemos a grande revelação do filme (que na verdade é obvia), mas isso não o deixa menos interessante e nem menos intrigante. 
 A ótima dupla de diretores Juliana Rojas e Marco Dutra conseguiram inserir tantos significados num suspense que mais parece fábula, que só entende literalmente quem já sentiu na pele o significado de "O mundo é diferente da ponte pra cá", inserção essa que só foi possível através do enorme auxilio dos belíssimos trabalhos de cenografia e fotografia, que construíram toda a parte visual para tornar esse conto atualmente crível.

Destaque:
  • Eu tenho ouvido muita gente falando que a Marjorie Estiano é uma das melhores atrizes brasileiras da atualidade, o que me causou muita curiosidade em assistir algum trabalho dela, e depois de As boas maneiras eu com certeza comecei a concordar com essas pessoas.
Direção: Juliana Rojas e Marco Dutra
Ano: 2017
País: Brasil
Minha nota: 8/10 


quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Relíquia macabra - Relic

 

 Atenção: Este filme é extremamente simbológico, extremamente mesmo! Caso você não se interesse por filmes assim, este é o aviso para evitar uma possível decepção.
 Kay recebe uma ligação informando que sua mãe, Edna, que é idosa e mora sozinha, não foi vista pelos vizinhos nos últimos dias e está sendo considera como uma possível desaparecida. Kay e Sam, sua filha, resolvem ir até a casa de Edna para procurar algum indício que auxilie na sua busca e lá encontram uma casa completamente desarrumada, suja e com os alimentos já apodrecidos. Edna reaparece repentinamente em uma manhã, aparentemente sem se lembrar de nada do que ocorreu, o que só faz aumentar a preocupação de Kay e de Sam quanto a ela.
 O medo é algo muito intimo, o que nos causa medo é sempre algo muito pessoal, e Relic nos mostra medos muito reais simbolizados em níveis crescentes de tensão e horror, que só ampliam nossas reflexões negativas sobre o que já temíamos. 
 O filme possui cenas de horror que nos faz mergulhar em um clima claustrofóbico e foi chamado por muitos de o filme de terror do ano, mas não se deixe levar pela opinião alheia, como eu escrevi anteriormente, o medo é algo pessoal, então se você nunca refletiu profundamente sobre distanciamento familiar, problemas mentais, velhice e principalmente sobre o abandono, talvez Relic não te atinja com o mesmo impacto que atingiu a muitos.
 Obs: Sabe aquelas frases de bêbado ditas do nada e que causam uma epifania profunda? Que te fazem pensar: Porra mano, filosofei horrores agora!? Uma vez eu disse impensadamente durante uma conversa de bar: Envelhecer é a consequência de viver. Desde que eu assisti à esse filme eu tenho pensado muito mais nessa frase.
 Eu planejei colocar Relic aqui assim que eu o assisti, mas esta também foi uma sugestão da Raisa, que é uma frequentadora do blog, caso você tenha uma sugestão de algum filme que você não acha em lugar nenhum e que tenha uma história que fuja do comum, pode deixa-la nos comentários.

Destaques:
  • A direção da estreante Natalie Erika James fez toda a diferença ao longa. Todo o trabalho de construções de cenas são inegavelmente belíssimos.
  • A última cena, mano do céu, tive um colapso mental as duas vezes que assisti ao filme.
Direção: Natalie Erika James
País: Austrália
Ano: 2020
Minha nota: 9/10 

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Devorar - Swallow

 


 Se eu listasse os filmes que me fizeram refletir por dias, Devorar com certeza apareceria entre os 10 primeiros. Até agora é o melhor filme que eu assisti no ano de 2020, e eu duvido que eu veja algo mais surpreendente do que ele nesses últimos meses do ano. Eu acredito que quanto menos você souber sobre a sinopse melhor será a sua experiência ao assisti-lo, então eu darei uma breve descrição, que você não deveria ler se pretende assistir ao filme, mas se você é daqueles que precisa saber de que se trata para criar o interesse em vê-lo, eu tentarei ser o menos spoilerenta o possível.  
 Hunter se casou recentemente com um jovem executivo que trabalha na empresa do pai e lhe dá tudo o ela deseja, materialmente falando. Seus dias consistem em deixar tudo irritantemente impecável em casa, jogar joguinhos de celular, desenhar, ser constantemente ignorada pelo marido e sogro e acatar os conselhos conservadores da sogra. Após ficar grávida indesejavelmente (para ela pelo menos), Hunter desenvolve a Síndrome de Pica, que causa uma incontrolável vontade de comer objetos que não tem valores nutritivos e que, no caso de Hunter, são objetos perigosos, que colocam em risco sua vida.
 Toda a analogia que pode ser dada à palavra engolir (swallow) é utilizada nesse filme, Hunter não engole apenas objetos perigosos, ela engole tudo o que lhe é imposto, tudo que é imposto às pessoas pelas invisíveis "regras de como ser uma pessoa/casal/família exemplar". Toda a estética do filme foi criada para aparentar que a história se passa nos anos 50, quando o "american way of life" estava em alta, e que assim como no filme, as pessoas escondiam seus problemas embaixo de um consumismo escancarado.
 Devorar é de uma imensa sensibilidade e sutilidade, eu tenho certeza que a maioria das pessoas não irão adora-lo, já que ele consegue causar um desconforto em quase todas as cenas e é tão excêntrico quanto a síndrome de Hunter, mas se você gosta de filmes que te fazem ficar na merda, refletindo com cara de idiota durante dias, literalmente fazendo seu ego filosofar com seu ID, Devorar é altamente recomendado.

Destaque:
  • Mano, a atuação da Haley Bennett é impecável, ela equilibra o delicado e o destrutivo. Como eu não conheci essa atriz antes? Porque o mundo não conhece essa atriz? Atuação perfeita.
Direção: Carlo Mirabella-Davis
Ano: 2019
País: Estados Unidos
Minha nota: 9.5/10
 

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Nell


 Após a morte de uma eremita que vivia isolada em uma floresta, o médico Lovell (Liam Neeson) descobre que a esclusa senhora tem uma filha já adulta, chamada Nell (Jodie Foster), que aparentemente nunca saiu do terreno da propriedade em que vive, nunca teve contato com outras pessoas e fala um idioma incompreensível. Como a Nell se opõe as tentativas iniciais de contato, Lovell e a psicóloga
 Paula resolvem passar alguns meses a observando com a finalidade de compreenderem como seria o humano sem a influência de outras pessoas e da vida moderna.
 Apesar de alguns clichês Hollywoodianos, o filme levanta um ótimo questionamento sobre a vida em sociedade. O respeito à vontade do individuo ou a preservação de sua segurança? O quanto a sociedade pode interferir? 
 Nell não é um filme excepcional, mas ele tem uma história bem construída, traz uma excelente atuação da Jodie Foster (como sempre), e ele também aborda um dos assuntos que eu sempre adoro ver no cinema, a comunicação.

Direção: Michael Apted
Ano: 1994
País: Estados Unidos
Minha nota: 7,5/10


domingo, 6 de setembro de 2020

Mangue negro

 

 Rodrigo Aragão é um dos grandes nomes do terror brasileiro, um grande mestre dos efeitos visuais e que mesmo com baixíssimos orçamentos consegue fazer ótimos filmes de gênero. Eu resolvi postar Mangue negro agora para ajudar a divulgar o novo filme do diretor, O cemitério das almas perdidas, que será apresentado na abertura do Cine fantasy (dia 06/09), que esse ano será transmitido pelo Cine Belas Artes drive-in. Mas se você não mora próximo à capital paulista, ou se não possui veículo, o Belas artes também irá transmitir o festival pelo Belas artes à la carte, que é o serviço de Streaming do cinema. Ele ficará disponível somente na noite do dia 07/09, e a mensalidade é de apenas R$9,90, menos que uma meia entrada no cinema e você ainda dá uma força ao terror nacional.
 Numa remota aldeia perdida em meio à manguezais vive uma pequena comunidade de pescadores, o que eles desconhecem é que com a morte do mangue, devido ao excesso de caça e por ter virado um depósito de lixo, toda a vida nele também irá morrer gradualmente, e quem se alimentar dos animais restantes do local será contaminado por uma espécie de vírus, que os transforma em mortos-vivos.
 Mangue negro é repleto de sangue e tripas (principalmente nas ultimas cenas), também tem algumas tiradas cômicas que funcionam bem, mas se você não é acostumado a esse tipo de filme é preferível você não assisti-lo comendo. Para mim, o único defeito do longa é o excesso de protagonismo da Dona Benedita, o que quebra um pouco o ritmo do filme mas não o prejudica por inteiro.
 Os cenários são maravilhosamente bem escolhidos, o mangue e suas cabanas de madeira dão todo um ar interiorano ao filme, e tem também a trilha sonora que vai de metal a Orquestra sinfônica do Espirito Santo.
  
Destaque:
  • Os efeitos especiais e a maquiagem (feitos pelo próprio Aragão) são ótimos, não perdem em nada para os terrores gringos. 
Direção: Rodrigo Aragão
Ano: 2008
País: Brasil
Nota: 7/10

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Tucker e Dale contra o mal - Tucker & Dale vs Evil

 

 Eu percebi que a minhas últimas postagens foram muito sombrias e resolvi postar uma comédia de terror, ou como dizemos popularmente, um thrash. Se você não conhece o termo, tente lembrar de Elvira - A rainha das trevas, que passava constantemente na sessão da tarde nos anos 90. Mas se você não cresceu nos anos 90, imagine As branquelas dentro dos Jogos mortais... o resultado seria um filme thrash.  
 Tucker e Dale são dois estereotipados caipiras, que acabaram de comprar uma cabana na floresta para passarem suas férias. Os seus planos de beber e pescar durante todo o verão são interrompidos quando um grupo de universitários (também extremamente estereotipados), que estão acampando em um local próximo dali, os confundem com assassinos em série e resolvem enfrenta-los, causando o mais improvável e hilário resultado possível.
 Assista sem pretensões, apenas para dar risada ou para melhorar seu animo e sua visão da existência humana depois de assistir alguns dos desgraçamentos mentais (como diria a maravilhosa Redatora de merda) aqui do blog.

Direção: Eli Craig
Ano: 2010
País: Canadá
Minha nota: 7.5/10

 

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Luz depois das trevas - Post tenebras lux


   Nesse amontoado de lembranças, sonhos e fantasias que é Luz depois as trevas, vemos a história da família mexicana de classe média alta, formada por Juan, Natália e seus filhos Eleazar e Rut. Ao que parece, a família se mudou a pouco tempo para uma área rural e eles ainda estão se adaptando à esse novo ambiente e aos seus habitantes.
 Linearidade e lógica são coisas inexistentes neste filme, então se for assisti-lo eu tenho certeza que sua experiência será melhor se você apenas observar essas belíssimas cenas extremamente bem dirigidas (que parecem o teste de alguém que acabou de comprar uma câmera nova e esta alterando de foco centralizado para desfocado), do que se você ficar procurando por explicações. Eu entendi cem por cento do filme? Não, mas neste filme isso definitivamente não tem relevância. Depois das primeiras cenas, que para mim foram as mais confusas, nós nos acostumamos com o ambiente que hora é pesadelo, hora é sonho destorcido, e começamos a ser absorvidos por essa atmosfera surreal que foi detalhadamente construída e sustentada em cada cena.
 Ganhador do prêmio de melhor diretor no festival de Cannes.
 Este filme foi pedido por um frequentador do blog. Caso tenha um filme que você não encontre em lugar nenhum e que tenha uma história que fuja do comum, pode deixar sua sugestão nos comentários.

Destaque:                              
  • Destaque para a cena em que a Natália toca e canta It's a dream, do Neil Young. Eu sempre acho que certos filmes tem tudo a ver com alguma música, mas Luz após as trevas parece até inspirado em It's a dream.

Direção: Carlos Reygadas
Ano: 2012
País: México
Minha nota: 8/10


domingo, 2 de agosto de 2020

Além do arco iris negro - Beyond the black rainbow


  No futuro, em um laboratório que realiza bizarras pesquisas experimentais vive a jovem cobaia Elena, que farta de sua monótona rotina arrisca-se em um ousado plano de fuga, que colocará não só a sua vida em risco.
 Além do arco-íris negro é um filme difícil em vários aspectos, difícil de compreender, difícil de não se incomodar e também é bem difícil de manter-se concentrado durante todo o filme. Eu não digo isso como uma crítica, o que ocorre em Além do arco íris negro é que a intensidade dos sons são tão fortes que chegam a causar agonia (em uma cena eu cheguei muito perto da horrorosa sensação de enxaqueca), o que me desconcentrou do filme em alguns momentos. Tentem imaginar o Freddy Krueger arranhando uma lousa... é essa a sensação.  Ele é instigante em muitos aspectos, principalmente tecnicamente, onde vemos que diversas técnicas se juntam para criar um ambiente extrassensorial, o que combinou muito com a temática do filme.  
 O que eu ouvi sobre esse filme é que ele é vazio, que poderia ter um roteiro mais bem trabalhado, mas eu penso exatamente o contrário. Obviamente o diretor, Panos Cosmatos, queria criar uma obra extrassensorial e não contar uma história detalhadamente bem elaborada. O Cosmatos parece ser um diretor que chegou investindo em obras com violência psicodélica, uma categoria que eu acredito que não tenha nome, então achei que esse é o nome que melhor a descreve, o que é interessante pela falta de filmes com a mesma temática, alias, vale muito a pena conferir seu segundo filme, o irreverente Mandy.
  Obs: A grande maioria das pessoas não gostaram desse filme, pelo que eu percebi, pela grande quantidade de cenas paradas e porque, de acordo com elas, a história é fraca. Na verdade existe uma história bem interessante, mas ela fica beeeeem escondidas nas entrelinhas e são dadas poucas dicas durante o filme onde podemos percebe-la. De qualquer modo fica o aviso: Se você não gosta de filmes parados, não assista a esse.
 Esse filme foi a sugestão de um frequentador do blog, então se você tem uma sugestão de um filme com uma temática diferente do habitual e que você não acha em lugar nenhum, pode deixar aqui nos comentários.

Direção: Panos Cosmatos
Ano: 2011
País: Canadá 
Minha nota: 7.5/10