terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Possessor


 

 Tasya Vos começa a ter complicações em seu serviço, que consiste em controlar a mente de uma pessoa através de um implante inserido manualmente e realizar o assassinato que foi ordenado pela misteriosa organização para qual ela trabalha. Tasya tenta esconder essas dificuldades iniciais, mas o que ela desconhece é que essas dificuldades gerarão consequências inimagináveis, que irão colocar em risco não só sua nova missão, mas também ameaçará todos a sua volta.
 Para mim esse foi o melhor filme de "terror" do ano de 2020. Cada vez mais os gêneros do audiovisual estão se mesclando e com isso trazendo obras difíceis de classificar, o que é ótimo já que, pelo menos para mim, quanto mais original e excêntrico o filme, mais interesse eu terei em vê-lo, e Possessor é um belo exemplo disso. Terror, ficção científica, suspense e psicodelia se embaralham nesse filme e causam uma inevitável e intensa apreensão, que só aumenta a cada cena.
 Possessor não é um filme para todos, além de algumas poucas cenas em que o gore rola solto, ele tem uma temática inteligentemente trabalhada dentro de uma atmosfera extrassensorial, então para gostar é necessário permitir-se imergir profundamente em seu sinistro e sensitivo clima.
 Esse filme foi pedido por alguns frequentadores do blog, caso você tenha alguma sugestão de filmes que você não acha em nenhum lugar, e que tenham uma temática que fuja do comum, pode deixar nos comentários.

Destaque: 
  •  Eu queria dar destaque para todos os elementos desse filme, mas preferi destacar as ambientações e a sonoplastia. Os dois são os principais elementos na criação da tensão psicológica.

Direção: Brandon Cronenberg
Países: Canadá, Inglaterra e Estados Unidos
Ano: 2020
Minha nota: 9,5/10


sábado, 26 de dezembro de 2020

Primer


 Este filme traz teorias da física de forma complexa e desafiadoramente compreensíveis. Este é o aviso de que ele é o filme mais difícil de entender que eu já ouvi falar, assista-o preparado para provavelmente não entender nada.
 Abe e Aaron são dois amigos engenheiros que na tentativa de criar um dispositivo que diminua a massa aparente de objetos, acabam inventando acidentalmente uma máquina do tempo. Eles planejam meticulosamente tudo o que deve ser feito antes, durante e após as viagens para que não haja uma quebra paradoxal temporal. Ao contrário dos outros filmes de viagem no tempo, Primer não explica nenhum conceito, não tem uma edição que facilite nossa compreensão e provavelmente só foi feito como forma de desafio do diretor/roteirista/produtor/ator Shane Carruth para o resto do mundo.
 Quando eu assisti Primer pela primeira vez eu reiniciei o filme depois de meia hora assistindo-o e fui pegar caneta e papel. Depois de assistir umas 4 vezes consultando e adicionando anotações eu acredito que eu tenha entendido cerca 80% do filme. Primer só valerá a pena se você gostar de ficar se torturando psicologicamente para entender algo. Então se você, assim como eu, não pode ouvir alguém falando que não entendeu nada de algum filme que isso já desperta um interesse em assisti-lo, tenho certeza que Primer será um dos seus maiores desafios cinematográficos.

Destaque:
  • É óbvio que o destaque do filme é o roteiro. Eu fico pensando no grau da genial obsessão desse cara pra conseguir bolar toda essa história.
Diretor: Shane Carruth
Ano: 2004
País: Estados Unidos
Minha nota: 8/10

sábado, 28 de novembro de 2020

Minha irmã - L'enfant d'en Haut



 Atenção: Se você não gosta de filmes parados, não assista a este.
 Simon sobrevive através de furtos realizados em uma luxuosa estação de esqui. Ele mora com a irmã, que vive constantemente pulando de emprego em emprego e atualmente depende financeiramente de Simon, que com apenas 12 anos cumpre a função de mantenedor de sua casa.
 O filme se divide entre os dois grandes dramas da vida de Simon, o drama social, que o leva a praticar os constantes furtos, e o drama familiar, que inicialmente aparenta ser contido e até casual, até nós nos aprofundarmos em sua pequena e disfuncional família e descobrirmos que a vida de Simon é muito mais trágica do que aparenta. 
 As atuações dos ótimos Kacey Mottet Klain e Léa Seydoux são a base de apoio para essa comovente e bem escrita história, que certamente encontrou a direção perfeita nas mãos da Ursula Meier, diretora já acostumada a captar o drama e a melancolia através de silêncios, olhares e expressões de seus atores.

Direção: Ursula Meier
Ano: 2012
País: França
Minha nota: 8,5/10

domingo, 15 de novembro de 2020

As boas maneiras

 

 
Essa é mais uma ótima produção do gênero de horror/terror nacional, gênero esse que felizmente está se expandindo e conquistando aos poucos os ainda incrédulos cinéfilos repetidores da frase: Filme brasileiro não presta!
 Em As boas maneiras acompanhamos Clara (Isabél Zuaa), que começa a trabalhar de babá/enfermeira para a rica caipira Ana (Marjorie Estiano), que a contrata mesmo ainda estando grávida, para auxilia-la com a casa durante esse período de gravidez. Como Clara dorme no serviço ela começa a reparar que Ana tem estranhos hábitos noturnos, que vão se intensificando com o avançar da gestação.
 Esse é um daqueles filmes em que tudo e todos inicialmente parecem triviais, até que sutilmente percebemos que toda a normalidade dos personagens começa a criar um tom diferente, algo mais sinistro e surreal. E é no auge desse surrealismo, exatamente no meio do filme, que ocorre uma brusca passagem de tempo, isso é algo que normalmente me incomoda muito, mas em As boas maneiras isso não quebra o ritmo do filme. Quando começa a segunda parte do longa nós já sabemos a grande revelação do filme (que na verdade é obvia), mas isso não o deixa menos interessante e nem menos intrigante. 
 A ótima dupla de diretores Juliana Rojas e Marco Dutra conseguiram inserir tantos significados num suspense que mais parece fábula, que só entende literalmente quem já sentiu na pele o significado de "O mundo é diferente da ponte pra cá", inserção essa que só foi possível através do enorme auxilio dos belíssimos trabalhos de cenografia e fotografia, que construíram toda a parte visual para tornar esse conto atualmente crível.

Destaque:
  • Eu tenho ouvido muita gente falando que a Marjorie Estiano é uma das melhores atrizes brasileiras da atualidade, o que me causou muita curiosidade de assistir algum trabalho dela, e depois de As boas maneiras eu com certeza comecei a concordar com essas pessoas.
Direção: Juliana Rojas e Marco Dutra
Ano: 2017
País: Brasil
Minha nota: 8/10 


quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Relíquia - Relic

 

 Atenção: Este filme é extremamente simbológico, extremamente mesmo! Caso você não se interesse por filmes assim, este é o aviso para evitar uma possível decepção.
 Kay recebe uma ligação informando que sua mãe, Edna, que é idosa e mora sozinha, não foi vista pelos vizinhos nos últimos dias e está sendo considera como uma possível desaparecida. Kay e Sam, sua filha, resolvem ir até a casa de Edna para procurar algum indício que auxilie na sua busca e lá encontram uma casa completamente desarrumada, suja e com os alimentos já apodrecidos. Edna reaparece repentinamente em uma manhã, aparentemente sem se lembrar de nada do que ocorreu, o que só faz aumentar a preocupação de Kay e de Sam quanto a ela.
 O medo é algo muito intimo, o que nos causa medo é sempre algo muito pessoal, e Relic nos mostra medos muito reais simbolizados em níveis crescentes de tensão e horror, que só ampliam nossas reflexões negativas sobre o que já temíamos. 
 O filme possui cenas de horror que nos faz mergulhar em um clima claustrofóbico e foi chamado por muitos de o filme de terror do ano, mas não se deixe levar pela opinião alheia, como eu escrevi anteriormente, o medo é algo pessoal, então se você nunca refletiu profundamente sobre distanciamento familiar, problemas mentais, velhice e principalmente sobre o abandono, talvez Relic não te atinja com o mesmo impacto que atingiu a muitos.
 Obs: Sabe aquelas frases de bêbado ditas do nada e que causam uma epifania profunda? Que te fazem pensar: Porra mano, filosofei horrores agora!? Uma vez eu disse impensadamente durante uma conversa de bar: Envelhecer é a consequência de viver. Desde que eu assisti à esse filme eu tenho pensado muito mais nessa frase.
 Eu planejei colocar Relic aqui assim que eu o assisti, mas esta também foi uma sugestão da Raisa, que é uma frequentadora do blog, caso você tenha uma sugestão de algum filme que você não acha em lugar nenhum e que tenha uma história que fuja do comum, pode deixa-la nos comentários.

Destaques:
  • A direção da estreante Natalie Erika James fez toda a diferença ao longa. Todo o trabalho de construções de cenas são inegavelmente belíssimos.
  • A última cena, mano do céu, tive um colapso mental as duas vezes que assisti ao filme.
Direção: Natalie Erika James
País: Austrália
Ano: 2020
Minha nota: 9/10 

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Devorar - Swallow

 


 Se eu listasse os filmes que me fizeram refletir por dias, Devorar com certeza apareceria entre os 10 primeiros. Até agora é o melhor filme que eu assisti no ano de 2020, e eu duvido que eu veja algo mais surpreendente do que ele nesses últimos meses do ano. Eu acredito que quanto menos você souber sobre a sinopse melhor será a sua experiência ao assisti-lo, então eu darei uma breve descrição, que você não deveria ler se pretende assistir ao filme, mas se você é daqueles que precisa saber de que se trata para criar o interesse em vê-lo, eu tentarei ser o menos spoilerenta o possível.  
 Hunter se casou recentemente com um jovem executivo que trabalha na empresa do pai e lhe dá tudo o ela deseja, materialmente falando. Seus dias consistem em deixar tudo irritantemente impecável em casa, jogar joguinhos de celular, desenhar, ser constantemente ignorada pelo marido e sogro e acatar os conselhos conservadores da sogra. Após ficar grávida indesejavelmente (para ela pelo menos), Hunter desenvolve a Síndrome de Pica, que causa uma incontrolável vontade de comer objetos que não tem valores nutritivos e que, no caso de Hunter, são objetos perigosos, que colocam em risco sua vida.
 Toda a analogia que pode ser dada à palavra engolir (swallow) é utilizada nesse filme, Hunter não engole apenas objetos perigosos, ela engole tudo o que lhe é imposto, tudo que é imposto às pessoas pelas invisíveis "regras de como ser uma pessoa/casal/família exemplar". Toda a estética do filme foi criada para aparentar que a história se passa nos anos 50, quando o "american way of life" estava em alta, e que assim como no filme, as pessoas escondiam seus problemas embaixo de um consumismo escancarado.
 Devorar é de uma imensa sensibilidade e sutilidade, eu tenho certeza que a maioria das pessoas não irão adora-lo, já que ele consegue causar um desconforto em quase todas as cenas e é tão excêntrico quanto a síndrome de Hunter, mas se você gosta de filmes que te fazem ficar na merda, refletindo com cara de idiota durante dias, literalmente fazendo seu ego filosofar com seu ID, Devorar é altamente recomendado.

Destaque:
  • Mano, a atuação da Haley Bennett é impecável, ela equilibra o delicado e o destrutivo. Como eu não conheci essa atriz antes? Porque o mundo não conhece essa atriz? Atuação perfeita.
Direção: Carlo Mirabella-Davis
Ano: 2019
País: Estados Unidos
Minha nota: 9.5/10
 

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Nell


 Após a morte de uma eremita que vivia isolada em uma floresta, o médico Lovell (Liam Neeson) descobre que a esclusa senhora tem uma filha já adulta, chamada Nell (Jodie Foster), que aparentemente nunca saiu do terreno da propriedade em que vive, nunca teve contato com outras pessoas e fala um idioma incompreensível. Como a Nell se opõe as tentativas iniciais de contato, Lovell e a psicóloga
 Paula resolvem passar alguns meses a observando com a finalidade de compreenderem como seria o humano sem a influência de outras pessoas e da vida moderna.
 Apesar de alguns clichês Hollywoodianos, o filme levanta um ótimo questionamento sobre a vida em sociedade. O respeito à vontade do individuo ou a preservação de sua segurança? O quanto a sociedade pode interferir? 
 Nell não é um filme excepcional, mas ele tem uma história bem construída, traz uma excelente atuação da Jodie Foster (como sempre), e ele também aborda um dos assuntos que eu sempre adoro ver no cinema, a comunicação.

Direção: Michael Apted
Ano: 1994
País: Estados Unidos
Minha nota: 7,5/10