segunda-feira, 6 de julho de 2020

A menina que morava do outro lado da rua - The girl who lives down the lane


 A adolescente Rynn (Jodie Foster) e seu pai se mudaram da Inglaterra para uma pequena cidade canadense há poucos meses mas já despertam o interesse dos habitantes locais por suas excessivas discrições. Rynn estuda em casa e raramente é vista na cidade, já seu pai, que é poeta, passa os dias em seu escritório e nunca é visto por ninguém. Os residentes ainda desconhecem o fato de que Rynn esconde um terrível segredo, no entanto quanto mais dias passam, maior e mais difícil fica esconde-lo de todos.
 A menina que morava do outro lado da rua expõe temas como pedofilia, emancipação e sexo diante de uma personagem de 13 anos, o que certamente o tornaria dificílimo de ser produzido em dias atuais (mas quem lembra da Jodie Foster em Taxi driver sabe que os anos 70 eram cinegraficamente muito pesados), porém são esses fatos que o tornam interessante, pois diante deles conseguimos ver que a vida de Rynn não seguiu o caminho que ela e seu pai planejaram, e como Rynn contornará essas adversidades são o tema central do filme.  
 Eu sempre digo que alguns filmes poderiam ter menos tempo de duração mas esse é um dos poucos casos que ocorre o contrário, o filme poderia ter pelo menos 15 minutos a mais, ele apresenta um bom desenvolvimento de todos os personagens mas eu fiquei com a impressão de que eles poderiam nos apresentar um pouco mais de sua personalidade.

Destaque:

  • As atuações da Jodie Foster, com 13 anos na época, e do Martin Sheen são excelentes.

Direção: Nicolas Gessner
País: Canadá
Ano: 1976
Minha nota: 8.5/10

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Inocência - Innocence

  

 Em um internato para meninas, que fica no meio de uma floresta isolada, as novatas chegam ao local em caixões e são recepcionadas pelas meninas de sua nova casa. Iris, a recém chegada, logo percebe que naquele lugar aparentemente perfeito existem excessivas regras e horários para tudo. Cada menina tem uma fita de cabelo de cor diferente, cada cor representa uma idade específica e também uma função diferente. Ela também percebe que Bianca, a garota mais velha de sua casa, sai todas as noites, um pouco antes das outras irem dormir, e quando elas acordam ela está de volta. O quanto respeitamos as regras quando queremos desvendar um mistério?
 A questão de Inocência é a obediência, essa é a palavra central do filme. Vemos uma pequena sociedade feminina sendo "domesticada", sendo ensinada a obedecer sem saber o porquê. Aqui temos uma visão do micro representado o macro de uma forma clara e muito bem montada.
 O filme tem inúmeras metáforas e muito lirismo, elementos que pra mim só o deixam mais interessante, mas imagino que muitas pessoas o achem cansativo por conta disso.
 Inocência me foi indicado pelo Breno, que é um frequentador do blog. Se tiverem mais indicações que, assim como essa, sejam de filmes que você não acha online em lugar nenhum, e que também tenham uma história que fuja do comum, por favor, deixem a sugestão nos comentários.

Destaque:
  • Eu nunca tinha assistido à um filme da Lucile Hadzihalilovic e foi uma experiência extremamente surpreendente. A direção se entrelaça perfeitamente com a fotografia criando uma atmosfera que sustenta todo o lirismo e o clima onírico do filme.

Direção: Lucile Hadzihalilovic
País: França
Ano: 2004
Minha nota: 9/10

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Estômago


 Raimundo Nonato chega a São Paulo sem dinheiro, moradia ou um planejamento do que realmente deseja e logo arruma um trabalho em um bar na região central da cidade. Lá ele descobre que tem talento para ser cozinheiro, e isso chama a atenção dos frequentadores do bar e de donos de restaurantes locais, causando uma rápida ascensão em sua carreira. Paralelamente, também vemos a ascensão de Raimundo Nonato como cozinheiro em um lugar bem diferente da capital paulista, a prisão, onde ele é obrigado a usar uma extrema criatividade para criar pratos que agradem os nada agradecidos presidiários.
  A dinamicidade do roteiro e da edição, que conseguem equilibrar perfeitamente as duas linhas temporais, transformaram Estômago em um dos melhores filmes nacionais já feitos. Esse é um daqueles filmes que, não importa quanto tempo passe, nós nunca esquecemos de sua história. É sempre minha indicação quando me pedem sugestões de filmes nacionais, mas esse não é um filme para todo mundo, porque o título pode ser metafórico (assim como o filme), mas realmente é preciso ter estômago forte para assisti-lo.

Destaque:
  • O elenco é impecável. Os coadjuvantes são excelentes, mas os protagonistas, João Miguel e Fabíula Nascimento, dão um show a parte.
Direção: Marcos Jorge
Ano: 2007
País: Brasil
Minha nota: 9.5/10

sábado, 2 de maio de 2020

Cria corvos - Cria cuervos


 Sabe aqueles filmes protagonizados por crianças sorridentes, de camisetas listradas, que andam de bicicleta com os amigos durante o verão e que te faz ficar com saudade da sua infância? Esse, definitivamente, não  é o tipo de infância que Ana, a protagonista de Cria Cuervos, teve. Ana, devido a fatos que se coincidiram com seus desejos, acredita que tem o poder de dar a vida e a morte as pessoas,  e ela tentará usar esse suposto dom para acabar com toda a opressão imposta à ela pelos tiranos adultos.
 Ana, acredito eu que como forma de refúgio mental, relembra, recria e imagina acontecimentos que deixaram fortes lembranças e pensamentos que a assombravam. Isso causa, em nós e em Ana, uma certa dúvida se aquilo ocorreu de fato, ou se ocorreu apenas em sua imaginação.
 Cria cuervos utiliza a revolta de Ana com a autoridade como metáfora para a revolta da população com a ditadura Franquista. Ana era obrigada a viver nos limites que lhe eram delimitados, tinha que seguir as regras que lhe eram impostas sem saber o motivo de ter que segui-las. Todas essas normas causam em Ana uma aversão por qualquer espécie de autoritarismo, e causam-lhe os piores pensamentos e desejos a quem lhe tente dar ordens.
  Para mim a Ana parece um exemplo dado por Freud de tudo que pode ocorrer durante a infância que irá influenciar negativamente na personalidade de uma pessoa, ou seja, Ana parece uma criança normal. Ela tem suas mágoas, seus momentos de egoísmo, seus desejos vingativos, mas também tem seus momentos de brincadeiras e suas curiosidades infantis. 
 Cria cuervos y te sacarán los ojos (cria corvos e eles te arrancarão os olhos) é o ditado popular de onde foi tirado o título do filme, e nesse caso nós compreendemos que inocência infantil são palavras que nem sempre andam lado a lado.
 Obs: Eu sempre costumo avisar quando o filme é parado, pois sei que muitos não gostam, então fica o aviso. O filme é muito intimista, a maior parte do tempo ele mostra apenas as expressões de Ana e tem várias sequências sem ou com poucas falas. O que eu sempre digo é: saia da sua zona de conforto e arrisque uma coisa nova, mas obviamente isso fica a seu critério.

Destaque:

  •  A impressionante interpretação de Ana Torrent, que na época tinha apenas 9 anos, é uma das mais complexas interpretações infantis que eu vi no cinema.

Direção: Carlos Saura
Ano: 1976
País: Espanha
Minha nota: 8.5/10

domingo, 12 de abril de 2020

Phenomena





 Dario Argento, tentando seguir a moda dos slashers americanos oitentistas, escreveu, produziu e dirigiu Phenomena, que mesmo com possivelmente o enredo mais utilizado nos filmes de terror dos anos 70 e 80 (seriall killer de adolescentes), deixa em evidência a extrema originalidade de Argento, que nunca fez um filme que não seja no mínimo esquisito pra caralho.
 Jennifer (Jennifer Connely) é uma adolescente americana que vai estudar em uma escola para meninas na Suíça. Logo após sua chegada ela é informada pela colega de quarto, uma estereotipada francesa, que há um assassino de garotas que assombra aquela região. Jennifer, que é sonâmbula, é ajudada após um de seus passeios sonâmbulos noturnos, por um famoso entomologista, que nota que a garota tem uma telepática ligação com insetos e que isso pode auxiliar muito na sua investigação para descobrir quem é o assassino.
 Um giallo com toques de slasher e de conto de fadas, que como quase todos os outros giallos que eu já vi tem problemas de narrativa e péssimas atuações dos coadjuvantes, mas que compensa esses fatos com uma extremamente bem construída atmosfera sombria e uma belíssima direção de arte. 
  Argento adora apresentar contrastes extremos em suas obras e em Phenomena ele utilizou inumeráveis insetos e vermes, que são completamente adversos a beleza hipnotizante da protagonista. As opiniões sobre esse filme também costumam contrastar bastante, eu gosto de filmes com uma narrativa precisa e sem pontas soltas, mas gosto mais ainda de filmes sensitivos, onde somos absorvidos por uma sinistra atmosfera sobrenatural, e para mim não existe diretor melhor em conseguir tal feito como o mestre do terror Dario Argento.
 Obs: Eu realmente gostaria de saber porque o Argento gosta tanto de quebrar janelas.
 Obs2: Se você não tem estômago forte é melhor evitar este filme. As cenas finais são de fazer até os mais carniceiros cinéfilos ficarem com o estômago embrulhado.

Direção: Dario Argento
País: Itália
Ano: 1985
Minha nota: 7,5/10

quarta-feira, 1 de abril de 2020

O desprezo - Le Mépris





 Considerados por alguns o maior diretor da história do cinema (e por muitos o diretor dos filmes mais chatos), Jean-Luc Godard, em um de seus melhores filmes, nos conta a história de como uma simples atitude pode nos fazer criar o sentimento mais duro e irremediável de todos, o desprezo.
 No filme vemos que o famosíssimo diretor Fritz Lang, que interpreta ele mesmo, está dirigindo um filme que conta a história de A odisseia, mas um produtor americano, preocupado com a lucratividade do filme, contrata o roteirista Paul, e lhe dá a tarefa de deixar o filme menos artístico e mais comercial. O arrogante produtor americano interessa-se instantaneamente por Camille, a esposa de Paul, e a atitude de Paul referente a esse interesse causa em Camille o mais profundo e intenso desprezo. 
 Esse é o filme mais facilmente compreensível do diretor mais incompreendido da história do cinema. O desprezo tem uma narrativa com várias metáforas mas a linearidade que ele apresenta é algo raro nos filmes do Godard. Os filmes do Godard foram o meu primeiro contato com filmes franceses e para mim foi extraordinária a ideia das metáforas, metalinguagem, dualidades e falta de linearidade, pareceu-me que tudo era possível no cinema. Eu fui tirada da zona de conforto de filmes americanos com explicações mastigadas e fui jogada em um labirinto de epifanias francesas. Eu compreendo que existam pessoas que gostam de filmes lineares, finais explicados e narrativa realistas, mas se você for uma dessas pessoas e quiser sair um pouco do seu lado do espelho(ou se você pretende assistir a um filme do Godard por conta da música Eduardo e Monica), esse é o melhor filme para começar a desbravar essa experiência extrassensorial que é o cinema francês.
 Obs: Se você nunca ouviu falar do Fritz Lang pelo amor de deus vá assistir Metrópoles, que é com absoluta certeza um dos 10 melhores filmes já feitos.
 Direção: Jean-Luc Godard
 Países: França e Itália
 Ano: 1963
 Minha nota: 9/10

    

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Pi


 Em seu primeiro filme, o diretor Darren Aronofsky já apresentava uma certa tendência a roteiros surreais, com ideias tão originais e inimagináveis que acabaram se tornando sua marca registrada.
 Pi conta a história de Max, um gênio da matemática que busca descobrir a numeração completa do pi e consequentemente começa a ser perseguido por acionistas e religiosos, que acreditam, cada um a seu modo, que a transcodificação desse número representa um padrão que tratá de certa forma poder ilimitado a quem o possuir.
 Quem já assistiu a outros filmes do Aronofsky, como os excelentes Mãe (2017) e Cisne negro (2010), sabe que a ambiguidade da narrativa é algo comumente utilizado em seus filmes e Pi segue por esse mesmo caminho. O apartamento de Max parece ser a forma metamorfoseada de sua mente, que de tão abarrotada de números e instrumentos de pesquisa, mal possui lugar para caminhar ou fazer qualquer outro tipo de atividade. O que "todos" sabemos é que a ideologia por trás de pi é muito parecida com a sequência de Fibonacci, a ideia de que tudo é matemática e que o pi é a perfeição em meio ao caos, mas o que acontece no filme é muito parecido com o mundo moderno. Enquanto o mundo busca poder, Max busca conhecimento e satisfação pessoal, mas o sistema societário sempre anda a procura de como corromper ideais pessoais em projetos financeiramente ambiciosos, o que trará à Max transtornos maiores dos que ele já enfrenta.
 Obs: Se você não entende nada sobre as teorias do pi e de Fibonacci imagino que a compreensão da história do filme seja um pouco mais complicada, sendo que mesmo pra quem conhece as teorias a história não é fácil, mas o filme vale o esforço da provável dificuldade de compreensão que ele causará.

Direção: Darren Aronofsky
Ano: 1998
País: Estados Unidos
Minha nota: 8/10