terça-feira, 3 de julho de 2018

Teus olhos meus





 Teus olhos meus fala sobre as nossas mudanças de conceitos. Quando fazemos ou acreditamos em algo que não achávamos certo antes, nós deixamos de ser aquela pessoa que achava errado, nós nos renovamos, nos metamorfoseamos, mudamos aquela velha opinião formada sobre tudo, e Gil, o personagem principal do filme, percebe que faz isso todos os dias. Algo muda nele todo dia e ele já não se reconhece mais, e é a tentativa dessa descoberta interior de Gil que protagoniza o filme.
 Gil é um jovem que vive de música, ele passa os dias compondo, tocando e bebendo com os amigos, fato que desagrada o marido de sua tia, causando muitas brigas e discussões em sua casa, e Otávio, que é produtor musical, vive preso a as memórias de um amor de sua juventude, o que traz problemas ao seu atual relacionamento. Gil e Otávio se conhecem casualmente, e eles rapidamente percebem que possuem uma estranha conexão, pois eles se enxergam um no outro, e esse encontro leva a vida dos dois a caminhos e descobertas totalmente inesperados. 
 Existem filmes que temos que ver mais de uma vez, por mais que este não seja um filme complexo, ele é profundo o suficiente para não o enxergarmos por inteiro da primeira vez que o vemos. Existe muitas poesias, reflexões e epifanias que só farão sentido ao assisti-lo novamente, então reassista-o de preferencia algum tempo depois de vê-lo pela primeira vez, pois você vai precisar de um tempo pra conseguir digerir esse final. 

Destaque:


  •  O filme seria ótimo se continuasse no clima Cameron Crowe, mas inesperadamente acontece um puta plot twist, do qual eu não darei detalhes pra não dar spoiler, mas aposto que ninguém nunca imaginou esse final.


Minha nota: 8,5/10
Direção: Caio Sóh
País: Brasil
Ano: 2011


terça-feira, 13 de março de 2018

A excêntrica família de Antônia - Antonia

  

  Constantemente definido como uma celebração da vida e da morte, o filme conta a história de uma pequena vila na Holanda, pouco depois da Segunda Guerra Mundial, através de três gerações da realmente excêntrica família de Antônia. A família é ligada não apenas pelo laço sanguíneo, mas também pela exclusão que sofrem da sociedade, exclusão essa que não os incomodam em nada, pois a paz de poder ser realmente quem você é, é bem maior que o instinto de querer ser aceito.
  A história e a mistura da comédia ao drama me lembrou muito o livro Cem anos de solidão, pois os dois apresentam personagens que apesar de todos os contratempos sobrevivem, e vivem se virando do jeito que podem, personagens que riem na cara da tristeza e que conseguem fazer de qualquer final um final feliz.

 Direção: Marleen Gorris
 Ano: 1995
 País: Holanda, Bélgica e Inglaterra
 Minha nota: 8,5/10


segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Z





 Tem cara de Brasil mas aconteceu na Grécia, não aquela mitológica que todo mundo conhece, mas a Grécia que vive no meio de uma Europa que nunca deixou de ser conturbada politicamente. Z deixa bem dividido os lados que amenizadores tentam não classificar como direita e esquerda, mas aqui não existem meios termos.
  O filme conta a história de um fato ocorrido em 1963, em meio a ditadura militar grega. Ele narra a investigação sobre o atropelamento que causou a morte de um político esquerdista, que vinha ganhando notoriedade entre a população. A investigação afirma o contrário do que obviamente foi declarado, o atropelamento não foi um mero acidente.
 Os filmes do diretor Costa-Gavras são marcados por denúncias políticas, mas em Z a liberdade foi agredida de uma forma que nos faz refletir que nós, que também vivemos em um país facilmente influenciável, podemos constantemente entrar e sair do governo de Anakins impositores, que só colocam a máscara de Vader depois de empossados, e apesar da metáfora utilizando um governo fictício, Z não poderia ser mais realista, nele a esquerda é comparada a um fungo, que precisa ser eliminado antes que se espalhe, nele a esquerda foi difamada e desrespeitada, a esquerda em Z caiu, mas na vida real nós, desde séculos atrás e até agora ainda estamos aqui e sempre continuaremos em pé.
  O filme ganhou o Oscar e o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro e adivinhem em qual país, que também estava numa ditadura militar, ele foi proibido? Nos créditos inicias do filme é mostrada a frase "qualquer semelhança com eventos reais ou pessoas vivas ou mortas não é casual, mas intencional." É como eu disse, ocorreu na Grécia, mas é impossível não notar que tem cara de Brasil.

 Direção: Costa-Gavras
 Ano: 1969
 País: França e Argélia
 Minha nota: 9/10


domingo, 3 de dezembro de 2017

Coração satânico - Angel heart




  
 Louis Cyphre (Robert De Niro) contrata o investigador  particular Harry Angel (Mickey Rourke) para localizar um antigo cantor de jazz, com quem ele tem um misterioso acordo. Enquanto Angel segue as pistas do paradeiro do cantor, uma trilha que mistura religião e assassinatos é traçada, e cada passo dado rumo a descoberta do caso, é um passo a menos para a descida de Angel ao inferno.
 Quase todas as cenas apresentam várias dualidades, que só farão sentido quando o segredo do filme for revelado. Em Coração satânico foi feita uma perfeita fusão da narrativa simples com o apelo visual pesado, que parecem representar perfeitamente a personalidade do personagem principal.
 A atmosfera pesada e angustiante que ronda Angel, é extremamente perceptível durante todo o filme, causando, até nos mais incrédulos, a certeza de que o sobrenatural é um perigo que fica cada vez mais eminente, até quando percebermos que para Angel, o sobrenatural é destinadamente inevitável.  

 Destaques:

  •  Mickey Rourke estava no seu auge, ele representa brilhantemente a transformação de seu personagem, que vai de um homem comum, até um homem que desceu ao inferno. De niro também faz um papel inesquecível, mas o destaque realmente é o Rourke.
  •  O trabalho de direção é extremante detalhado, é construída uma cuidadosa atmosfera macabra envolta de cada cena. 

 Minha nota: 9/10
 Direção: Alan Parker
 País: EUA
 Ano: 1987





sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Deixa ela entrar - Låt den rätte komma in

  

  Filme de vampiro. Só essa classificação já espanta uma grande parte dos fãs de filme de horror, mas não se prenda ao gênero, pois Deixe ela entrar é um dos melhores filmes de "horror" das últimas décadas.
  Oscar é um garoto solitário até conhecer sua nova vizinha, Eli, que partilha da sua mesma idade e solidão. Eles rapidamente se tornam amigos, e Oscar parece não se importar com o fato de Eli não sair durante o dia, não comer ou conseguir escalar para sua janela, que fica no terceiro andar. O que Oscar não imagina é que essa amizade trará drásticas mudanças (e muito sangue) à sua vida. 
  Com reviravoltas e muita neve, esse filme mostra uma Suécia que só não é mais fria que seus habitantes, pois com exceção de Oscar e Eli, os personagens tem falas rápidas, olhares gelados e fazem uma bela representação de como as crianças enxergam os adultos: completamente distantes dos acontecimentos de suas vidas. 
  O diferencial de Deixe ela entrar é a abordagem do tema, ele tem várias ambiguidades e por conta disso deixa algumas questões em aberto, o que pode influenciar sua visão de que se o final é uma tragédia ou um recomeço.
  Obs: Não é porque a classificação é terror que o filme tem que ser assustador, eu classificaria como horror-arte, mas como essa classificação não existe eu vou classificar como terror mesmo.
 Obs2: Preste atenção nas portas, são utilizadas como uma metáfora bem interessante.   

 Destaques:   
  •  A cena da piscina, por si só já é um espetáculo a parte de direção.
  •  A direção dos atores mirins, os enquadramentos e os ângulos de câmera, mano... dá até vontade de abraçar esse diretor. 

 Direção: Tomas Alfredson
 País: Suécia
 Ano: 2008
 Minha nota: 9/10

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

A outra Terra - The other earth


  No rádio do carro de Rhoda Williams, que acaba de ser aprovada para o curso de física de umas das mais conceituadas universidades do mundo, foi dada a notícia de que um novo planeta foi descoberto e é possível vê-lo a olho nu. Ela observa a nova descoberta e sem perceber ultrapassa um sinal fechado e bate violentamente no carro de um famoso compositor, tirando a vida de seu filho e de sua esposa grávida. Rhoda passa quatro anos presa, e quando ela retorna é informado que o novo planeta é exatamente igual a Terra, tem a mesma extensão, os mesmos continentes, até as cidades são iguais, e quando ocorre o primeiro contato com a outra terra é descoberto que as pessoas também são as mesmas, existe uma cópia nossa lá, que viveu tudo que a gente viveu. E é à partir dessa notícia que as pessoas começam a questionar: Será que é possível ir até lá e conversar comigo mesmo? Será que minha outra versão é melhor do que essa? Será que meu outro eu cometeu os mesmos erros que eu cometi?
 Diante desses questionamentos Rhoda se candidata a uma vaga na tripulação da primeira nave a visitar a outra Terra, em busca de uma outra realidade, torcendo para que a vida da Rhoda 2 não seja apenas o reflexo de sua própria vida. 
  Este filme trata de temas como o perdão e a solidão, mas acima de tudo ele fala sobre arrependimento, já que se não houver uma outra Terra nós teremos que aprender a lidar com as consequências do que causamos, pois não podemos buscar uma outra realidade que não seja a nossa.
 E você? Ia querer conhecer a outra Terra?


 Destaque:
  • Destaque para a Brit Marling, que atuou no papel de Rhoda e também escreveu o roteiro do filme. Ela também escreveu e atuou na maravilhosa série da Netflix The Oa.

 Direção: Mike Carril
 Ano: 2011
 País: Estados Unidos da América
 Minha nota: 8/10

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Mamãe é de morte - Serial mom



 Beverly aparenta ter a família perfeita, é casada com um dentista certinho e tem dois educados filhos adolescentes. O que ninguém desconfia é que não reciclar lixo, não usar cinto de segurança ou magoar qualquer membro da sua família pode te tornar um alvo dessa serial killer mãe de família, obsessiva em manter tudo e todos dentro dos seus conceitos morais.
 Mais uma critica em forma de filme do diretor John Waters ao American way of life. A cidade de Baltimore, que é sempre o cenário de seus filmes, está irritantemente perfeita, colorida e alegre. Os pássaros cantam e os moradores são sorridentes... até que Berverly nos mostra a cruel realidade escondida por trás daquelas paredes com tons pastéis, pessoas que roubam vaga do estacionamento, que devolvem fitas cassetes sem rebobinar e até pessoas que não fazem higiene bucal.
 O intrigante é que nós acabamos gostando da Beverly, quando a contagem de corpos começa a aumentar nós percebemos que ela só quer que sua família tenha uma vida perfeita, mesmo que pra isso seja necessário virar a serial mom, e aterrorizar a vida dos grosseiros suburbanos.  

 Direção: John Waters
 Ano: 1994
 País: Estados Unidos
 Minha nota: 8/10

sábado, 22 de julho de 2017

Bonnie and Clyde - Uma rajada de balas


  As revoluções ideológicas ocorridas nos anos 60 influenciaram radicalmente o modo de se fazer cinema até então conhecido. A nouvelle vague francesa, o neo-realismo italiano, Bergman e Kurosawa inovavam o cinema mundial, e para evitar a falência de grandes estúdios, os EUA resolveram dar abertura a novos diretores, e Bonnie e Clyde foi o carro-chefe da nova Hollywood.
 Um dos filmes mais influentes da história marca também a melhor fase cinematográfica americana, que para competir com toda a nudez e sensualidade dos filmes europeus trouxe umas das suas características mais marcantes, a violência gráfica. 
 Baseado na história do casal Bonnie Parker e Clyde Barrow, que aterrorizaram os EUA nos anos 30, o filme mostra desde o momento que o casal se conhece, até o trágico desfecho de suas vidas. A queda do conservadorismo no cinema americano fica evidenciada pela simpatização dos bandidos e eternizada pela frase de Bonnie: Nós roubamos bancos. Há algo errado nisso?
  
 Destaque:

  • A cena final, uma das melhores e mais inesquecíveis cenas do cinema. 

 Direção: Arthur Penn
 Ano: 1967
 País: Estados Unidos
 Minha nota: 9/10 



quarta-feira, 12 de julho de 2017

Grave - Raw



 Justine, que vem de uma família de veterinários vegetarianos, acaba de entrar na faculdade, e um dos primeiros trotes como "bixo" é comer carne crua. O que Justine não esperava é que seu contato com carne despertasse um desejo até então desconhecido, que vai se tornando cada vez mais incontrolável.
  Com fama de fazer as pessoas passarem mal no cinema, esse filme é inegavelmente pesado, no sentido mais gore possível. Mas não o assista com o intuito de ver um filme trash, Grave foi belissimamente bem produzido, tem uma linda fotografia cheia de luz, que contrasta com o vermelho sangue e traz um realismo que estranhamente dá um ar natural as cenas mais sanguinolentas.
  Com inúmeras teorias sobre suas metáforas, Grave é um filme com muita subjetividade, que representa (muito bizarramente aliás) a transformação que Justine passa para alcançar o mundo adulto. O filme é muito mais sensitivo do que hipotético, então assista com mais sensibilidade e menos teorias, por que "grave" são os danos que ele causará no seu sistema nervoso.

 Destaque:

  • A diretora Julia Ducournau conseguiu construir uma mistura de cenas realista com um tema surreal, que de tão kafkiano nos deixa em um estado de total perplexidade.

  Direção: Julia Ducournau
  Ano: 2016
  País de origem: França e Bélgica 
  Minha nota: 9/10

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Possessão - Possession



  Abra a sua mente além de todos os limites da realidade e entre nessa insólita história surreal.
  Mark resolve largar o emprego para ficar mais tempo com a família, e tentar salvar seu casamento com Anna. O que não dá muito certo, pois Anna o abandona e só aparece esporadicamente para visitar o filho. Mark suspeita que ela está vivendo com outro homem e contrata um detetive para segui-la.
  E é à partir daqui que a aparente normalidade do roteiro é rompida, porque Mark descobre que Anna está tendo dois casos extraconjugais, mas só um deles é com um humano.
  Os cenários claustrofóbicos e a câmera invasiva do Zulawski parecem atormentar ainda mais os personagens centrais. Eles não tem espaço, não conseguem respirar, nós ou as paredes estamos sempre perto demais deles, sempre cercando-os.
  Possessão é uma das obras primas do cinema surrealista, é uma metáfora sobre o rompimento das barreiras da mente humana. Aqui não existe vilões ou mocinhos, aqui só existe o bizarro. 

 Destaque:

  •  Destaque para a estonteante Isabelle Adjani, uma das mais premiadas atrizes do cinema, que mesmo explodindo em pus e sangue (cena acima) consegue continuar hipnotizante.

  Direção: Andrzej Zulawski
  Ano: 1981
  Países de origem: França e Alemanha
  Minha nota: 9/10