quarta-feira, 5 de abril de 2017

Sexo, mentiras e videotape - Sex, lies and videotape




  Ann e John vivem um casamento de aparências. Ela deixou o emprego a pedido do marido e agora é uma dona de casa entediada, que maximiza problemas como passatempo, e ele tem um caso com Cynthia, a irmã de Ann. A chegada de Graham, antigo amigo de faculdade de John, traz consigo a percepção da realidade para as irmãs.
  Graham, que é impotente, grava para seu próprio prazer mulheres falando abertamente sobre fatos de suas vidas sexuais em fitas cassetes, que ele promete que não mostrará a ninguém.
  O filme de estréia do diretor Steven Soderbergh utiliza o ainda polêmico tema sexo para escancarar o tema central da história, as mentiras, as que contamos para os outros e para nós mesmos.
  Através das gravações de Graham vemos que a garantia de que a fita não seria vista por mais ninguém as fazem querer contar seus segredos mais ocultos, como se fosse necessário falar aquilo em voz alta pelo menos uma vez e não ser julgada. Nas gravações elas não precisam fingir que são recatadas ou fingir que gostam de sexo, elas podem mostrar o que são debaixo do véu da moral e da normalidade.
    Em Sexo, mentiras e videotapes as aparências criadas para mascarar as vidas sem sentido são descobertas, e não resta outra opção aos personagem depois de serem expostos as gravações, a não ser conviver com a verdade.

 Destaque:

  •  O roteiro, que é simultaneamente intimista e aberto, e que também foi escrito pelo Soderbergh.

 Direção: Steven Soderbergh
 Ano: 1989
 País de origem: Estados Unidos
 Minha nota: 8.5/10


quarta-feira, 8 de março de 2017

Suspiria

  



  A americana Suzy muda-se para Alemanha afim de estudar em uma conceituada escola de balé, mas no dia de sua chegada ela testemunha uma estudante fugindo desesperadamente em meio a uma enorme tempestade. No dia seguinte Suzy fica sabendo que a aluna tinha sido expulsa da escola, e que um pouco depois de sua fuga ela foi brutalmente assassinada.
  Suzy descobre que a jovem aluna suspeitava que a escola era regida por bruxas e que todos que partilhavam dessa suspeita desaparecem ou morrem misteriosamente.
  Assim que Suzy entra na escola, a sensação que nos é dada é de que ela atravessou o espelho de Alice, e que na verdade aquele é o mundo invertido, pois depois de adentrar a escola nossos olhos já não observam os lugares da mesma forma. A estética de Suspiria é exageradamente colorida, suas escandalosas paredes, janelas e decorações querem nos tirar toda a atenção para não percebemos os segredos escondidos dentre os aposentos da escola.
  Considerada a obra prima do mestre do horror Dario Argento, Suspiria tem os cenários mais assustadores (e também os papeis de parede mais cafonas) da história do cinema.
  Primeiro filme da trilogia das mães, seguido por A mansão do inferno (1980), e O retorno da maldição (2007).
  
 Direção: Dario Argento
 Ano: 1977
 País de origem: Itália
 Minha nota: 8/10

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Gato preto, gato branco - Crna macka, beli macor

  


  Vencedor do Leão de prata de melhor diretor, Gato preto, gato branco acompanha a história de Matko, um cigano trambiqueiro que mente para um mafioso idoso afim de conseguir dinheiro emprestado para investir em um golpe. Mas Matko é enganado pelo seu comparsa Dadan, que lhe rouba todo o dinheiro, e para sanar a dívida ele terá que casar seu filho, Zare, com a irmã de Dadan. O problema é que Zare está apaixonado pela neta da proprietária de um bar local, e sua avó está tentando a casar com Dadan. E no meio dessa bagunça shakespeariana ainda tem as putas festas super animadas no meio de tiroteios e bombardeios, que são bem tradicionais nos filmes do Kusturica. 
  Dá pra reconhecer que um filme foi feito pelo Kusturica logo nas primeiras cenas. As bandas, as mortes, as ressuscitações, os animais e outros montes de confusões surreais, que só ele conseguiria transformar, mesmo com um monte de clichês como mocinho, vilões e finais felizes, em um filme extremamente original.

 Destaque:
  • A construção dos personagens. Todos eles são tão carismáticos que você não sabe se torce pro vilão, pro mocinho, pro idoso ou pra anã.

 Direção: Emir Kusturica
 Ano: 1998
 País de origem: Iugoslávia
 Minha nota: 8/10



  

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Corra Lola, Corra - Lola rennt

  


 "O medo agora é que meu novo modo não faça sentido? Mas por que não me deixo guiar pelo que for acontecendo? Terei que correr o sagrado risco do acaso. E substituirei o destino pela probabilidade."
  Nessa frase Clarice Lispector, assim como eu, prefere acreditar que parte de nossas vidas são determinadas pelo acaso. Um atraso, uma distração ou uma pequena mudança repentina talvez possa determinar nosso futuro. E é exatamente sobre as probabilidades do acaso que Corra Lola, corra fala.
  As três histórias contadas no filme tem a mesma introdução, Lola tem apenas vinte minutos para conseguir 100 mil marcos e salvar a vida de seu namorado. O desenvolver de cada história é formado por eventualidades do acaso, um conjunto de pequenos incidentes que interferem para que Lola consiga ou não concluir o seu objetivo.
  Os cortes rápidos, as repetições que parecem ecos em nossa cabeça e os relógios que continuam rodando rapidamente transformam o filme em uma emocionantes corrida, em que ansiamos pelo destino de Lola a cada esquina virada. E para implementar nossa aflição a trilha sonora parece batidas de ponteiros imaginários contando o tempo restante de Lola.

 Destaque:
  • A edição (ou montagem), o elemento que, dependendo de como a justaposição de fragmentos é feita, pode dar um outro sentido ao filme. Menosprezada por muitos diretores, aqui se mostra o elemento mais imponente do filme, apesar de apresentar outros bons elementos é a edição inovadora que o transformou num recente clássico cult. Na verdade qualquer componente do cinema, quando genialmente bem trabalhado, como a direção da cena da cabine em Paris, Texas, o roteiro de Casablanca, que eu lembro toda vez que alguém fala em Paris e a edição da cena da escadaria de O encouraçado Potemkin, podem transformar o que poderia ser só mais um filme em memórias permanentes em nossas mentes. 

 Direção: Tom Tykwer
 Ano: 1998
 País de origem: Alemanha
 Minha nota: 9/10


sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

O anjo exterminador - El angel exterminador




  Buñuel novamente mostra o sentido literal do surrealismo e volta a atacar o alvo constante de seus filmes, a burguesia. Porque se 10 anos depois ele ironicamente nos apresenta  "seu discreto charme", agora ele o disseca, retratando o lado por trás da máscara da moral e dos bons costumes.
  Um grupo de aristocratas é convidado para um jantar, e após diversas situações incomuns eles percebem que inexplicavelmente não conseguem sair do local. Com o passar dos dias as aparências são esquecidas, e todos começam a mostrar o que realmente são.
  Eu já ouvi muitas interpretações diferentes sobre este filme, pra mim Buñuel escancara o que Nietzsche fala em seu livro Humano, demasiado humano, que os valores morais foram feitos para falsamente nos domesticar, para nos fazer fingir que não somos animais. Mas seguindo a ideia de que a definição de surrealismo é ir além dos limites da lógica e da razão e expressar o inconsciente e os sonhos, então a perspectiva é diferente a cada um que o assiste. 
  Veja essa inimaginável história (que supostamente foi dada a Buñuel por Gil Pender) e tire suas próprias conclusões.


 Direção: Luis Buñuel
 Ano: 1962
 País de origem: México
 Minha nota: 8.5/10

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Alabama Monroe - The broken circle breakdown



  Esse premiadíssimo filme belga conta a história da família formada por Didier, um tocador de banjo ateu, Elise, uma tatuadora religiosa, e de Maybelle, a filha do casal. A trama começa a se desenvolver quando Maybelle, que é o centro da vida dos pais, adoece gravemente, e a fé, a esperança e a sanidade do casal é posta a prova.
  No filme nós vemos duas linhas temporais, uma linha mostra a felicidade sendo construída e a outra mostra como ela é quebrada. As duas linhas são contadas simultaneamente para nos tirar a esperança de um final feliz, porque bem antes do final nós já percebemos que a felicidade se afasta a cada minuto decorrido do filme.  
  Alabama Monroe pergunta: e se o que é mais importante para nós nos fosse tirado, o que faríamos para continuar? E nos mostra que independente do caminho escolhido, traçamos a mesma trilha de dor.

 Destaque:

  • Destaque para para a maravilhosa trilha sonora, que é tocada pelos próprios atores, e principalmente para Wayfaring stranger, que eu gostei mais do que a versão original, e olha que a versão original é do Johnny Cash.

 Direção: Felix Van Groeningen
 País de origem: Bélgica
 Ano: 2014
 Minha nota: 9/10


quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Underground - Mentiras de guerra

  


  O melhor filme de um dos diretores mais originais do cinema mundial. Alem de ganhar a Palma de Ouro, Underground também é considerado o melhor filme do leste europeu.
 Quando a Alemanha invade a extinta Iugoslávia, Marko e Crni são procurados por roubar armas dos nazistas. E com Belgrado sendo bombardeado pelos aliados e pelos nazistas, seus familiares e amigos se escondem em um abrigo, onde ficam durante 20 anos fabricando armas para auxiliar a resistência... Pelo menos é isso o que eles pensam. Na verdade a guerra já acabou a muitos anos, mas Marko os engana com o intuito de traficar as armas.
   Mesmo que esteja ocorrendo uma guerra, um velório ou uma invasão nazista sempre tem uma puta festa rolando entre bombas e tiroteios nos filmes do Emir Kusturica, provavelmente o único diretor que conseguiria contar a história da destruição de uma nação na forma de uma hilária fábula. 

 Destaques:

  • A incessante e extremamente animada trilha sonora.
  • A construção dos personagens, que de tão excêntricos é difícil escolher qual o mais são entre eles.

 Direção: Emir Kusturica
 Ano: 1995
 Países de origem: Bulgária, Hungria, Alemanha, França, Republica Tcheca e Iugoslávia
 Minha nota:9.5/10
  
  
  

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

As virgens suicidas - The virgins suicides

  

 Filme de estreia da diretora Sofia Coppola, que já demonstrava seu talento em transpassar uma extrema sensibilidade, que de tão espessa é quase palpável.
  O filme narra a história da obsessão de um grupo de adolescentes para descobrir o motivo dos suicídios das irmãs Lisbon, que aliás já eram a obsessão deles mesmo antes de seus trágicos finais.
 O roteiro, a fotografia, o figurino e todo o resto do filme cria uma atmosfera que te faz pensar que o tempo voltou aos anos 70, e que você é só mais um dos observadores de cada movimento das irmãs Lisbon, principalmente da irmã interpretada pela Kirsten Dunst. 
 Os suicídios, que para os garotos representa o fim da inocência, a transição para o mundo adulto, pode também representar o que nunca conseguiremos alcançar. Pode ser um amor não correspondido, a lembrança de alguém que nunca voltaremos a ver, ou a estranha saudade melancólica de algo que nunca conhecemos. 
 Sofia Coppola não poderia ter escolhido um livro melhor para adaptar, pois nele tudo que é sensível em nós é exposto, tudo que tentamos esconder é revelado, somos apenas adolescentes inseguros, sentados em frente a casa dos Lisbon, esperando ansiosamente até que uma das irmãs apareça.


 Destaques:
  •  Dar destaque a direção de atores da Sofia Coppola é até redundante, já que isso também é demonstrado em seus outros filmes, mas mesmo assim é um destaque inevitável. 
  •  Um dos melhores roteiros adaptados que eu já vi, que aliás também foi escrito pela Sofia Coppola. E se está parecendo que eu puxo o saco dela é porque eu puxo mesmo.  

♥ ♥ ♥ ♥ ♥  ♥ ♥ ♥ ♥ ♥


 Direção: Sofia Coppola
 Ano: 1999
 País de origem: Estados Unidos
 Minha nota: 8.5/10


sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Garota sombria caminha pela noite - A girl walks home alone at night



  Na sombria cidade de Bad City (nome descaradamente autoexplicativo), em meio a degeneração geral, vivem os dois personagens centrais: Arash e uma vampira solitária. Enquanto Arash passa seus dias trabalhando e cuidando do pai viciado, a vampira misteriosa passa suas noites atacando e assustando os decadentes cidadãos desta cidade.
  A belíssima fotografia preto e branco implementa o ar taciturno do filme, mas o destaque é a trilha sonora, porque o filme, em sua maior parte, fica emergido num clima melancólico, e é a música que diferencia as emoções demonstradas no momento.
  Todos os elementos juntos se transformaram em uma bela obra artística. Até o caso romântico dos personagens foi muito bem encaixado, e aliás, filmes de vampiros podem ter um romance e não ter referências de Crepúsculo, pois o romance está entre os vampiros cinematográficos desde Nosferatu.
  Apesar da história se passar no Irã e ser interpretada por atores Iranianos, essa mistura de terror e western foi gravada nos Estados Unidos. E mesmo trazendo elementos que parecem ter sido esquecidos dos filmes de vampiros, como a escuridão, a maldade e a falta de remorso por matar, ele consegue inovar com uma vampira que dança sozinha, escuta Lionel Richie, e que na verdade não caminha, mas anda de skate pela noite.

 Destaque:
  • O filme foi classificado como um "filme de arte" porque é impossível não reparar no trabalho perfeito de fotografia e direção de arte.

 Direção: Ana Lily Amirpour
 Ano: 2015
 Países de origem: Estados Unidos e Irã
 Minha nota: 9/10


domingo, 9 de outubro de 2016

Crash - Estranhos prazeres





 David Cronenberg novamente demonstra a obsessiva busca ao prazer a qualquer custo através do uso das afrontas e das mesclas do artificial ao humano.
 James e sua esposa tem, mesmo para as pessoas mais libertinas, preferências sexuais no minimo excêntricas, mas após sofrer um acidente automobilístico, James conhece um grupo de pessoas que sentem prazer sexual assistindo e encenando acidentes de carro, e eles cultuam cicatrizes e mutilações causadas por esses acidentes. James é automaticamente atraído pelo grupo, mas essa incessante busca a acidentes exige de James e de sua esposa uma doação emocional, que mesmo sendo excitante e prazerosa, consome muito mais do que eles imaginavam.
  Crash usa como metáfora um dos nossos instintos mais primitivos, e mesmo usando de cenas sexuais realistas a delicados e pequenos gestos provocantes, como deslizar as mãos por um para-choque acidentado ou por um volante, o filme mantem desde a primeira cena um clima extremamente sensual e perturbador, que choca até os mais imorais.


 Destaque:

  • Todas as atuações são maravilhosas, e mesmo com a sempre impecável Holly Hunter no elenco, quem mais me chamou atenção foi a Deborah Kara Unger, que consegue expressar juntamente a sensualidade e o sofrimento por ser escrava de seus prazeres.

 Direção: David Cronenberg
 Ano: 1996
 Países de origem: Canadá e Reino Unido
 Minha nota: 9.5/10